Revista Veja Saúde de número 456, ano julho 2020

Está cada vez mais claro que os ataques do novo coronavírus não se limitam ao aparelho respiratório. De AVC a diarreia, visualize as manifestações da infecção pelo corpo e saiba o que a medicina pode fazer para vencer essas frentes de combate simultâneas

No fim de março, a pneumologista Elnara Negri, do Hospital Sírio Libanês e da Universidade de São Paulo (USP), notou um fenômeno tão curioso quanto preocupante em uma de suas primeiras pacientes com Covid-19.
”Ela voltou para o hospital depois da alta porque sua oxigenação começou a piorar rapidamente. Logo depois que nós a entubamos, seu dedão ficou roxo, como se um coágulo estivesse bloqueando a chegada de sangue até ele”, relata.
A complicação após inserir um tubo na garganta da mulher para fornecer oxigênio lembrava algo que Elnara só via com frequência no início dos seus anos de experiência em UTIs, onde hoje vão parar entre 5 e 12% dos infectados pelo coronavírus.
”Naquela época, o aparelho disponível liberava bolhas de ar na circulação que causavam tromboses em regiões periféricas”, recorda a médica. A tecnologia, no entanto, evoluiu, e o risco de isso ocorrer declinou.

A estratégia para reverter situações do gênero é lançar mão de anticoagulantes, remédios que dissolvem os trombos e desobstruem veias e artérias.
“Como naqueles tempos, utilizamos a heparina na paciente com Covid e ela logo melhorou. Mas decidimos investigar o que estava acontecendo”, conta Elnara.
Em contato com patologistas e médicos que realizam autópsias, a pneumologista descobriu que, na análise de vítimas fatais da doença, havia entupimentos em vasos sanguíneos não só nos pulmões mas também no coração, nos rins e até na pele.
Aprofundando-se no caso, Elnara se tornou uma das primeiras profissionais do mundo a registrar o elo entre a infecção e tromboses. E também publicou seus achados positivos com a anti coagulação em 27 pacientes internados.

Com a agressão do vírus e a reação do organismo, micro trombos podem surgir nos pulmões, só que, de tão pequenos e localizados, passam despercebidos pelo corpo. Isso ajuda a entender por que algumas pessoas com a infecção têm quedas bruscas na oxigenação do sangue sem sentir falta de ar.

É o cenário de uma pneumonia silenciosa, marca registrada da Covid-19.
“Os pulmões são, sem dúvida, o local mais atacado pelo vírus e onde começam os problemas”, diz a cardiologista Ludhmila Hajjar, da USP  e da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Calcula-se que oito em cada dez pessoas infectadas não vão sofrer complicações ali ou em outros órgãos, mas até 20% dos acometidos precisam de internação e, às vezes, UTI. É nessa parcela que o vírus Sars-Cov-2 tende a promover seus danos diretos e indiretos.
O desafio é saber quem está mais suscetível ao ataque sistêmico.