Mesmo sendo o vice-campeão mundial em casos de Covid-19, o Brasil ainda pena para testar as pessoas. Entenda por que isso é decisivo na pandemia e quando vale ir atrás dos exames .

“Testar, testar e testar”. A frase de Tedros Adhanom, o diretor-geral da organização Mundial da Saúde (OMS), virou um mantra na batalha contra o coronavírus.

Passados três meses da declaração, o Brasil sofre para cumprir a diretriz, tornou-se o segundo país com mais casos da doença, mas ocupa o décimo quinto lugar na lista das nações que mais fazem exames para detectar o patógeno na população.
Na última semana de maio, o Ministério da Saúde atualizou sua contagem de testes RT-PCR feitos na rede pública. Também chamados de moleculares, eles são os mais precisos para flagrar o vírus ativo.
O cálculo oficial, que não inclui os testes rápidos e focados em anticorpos e é divulgado em intervalos irregulares, indica pouco mais de 870 mil exames, o que significa que apenas 0,4% dos cidadãos foram avaliados.

Mas todo brasileiro teria que fazer um exame mesmo? Ou deveríamos investigar só quem tem sintomas como tosse e febre, por exemplo? “Quanto mais testes forem feitos, mais se tem noção da evolução e maior a chance de controlar a doença”, explica Emerson Gasparetto, vice-presidente da área médica da Dasa, grupo que fez parceria com o governo federal para lançar o centro de diagnóstico emergencial para Covid-19 com o objetivo de acelerar a capacidade de processamento de testes no país.
O Ministério da Saúde concorda, “É necessário realizar um grande número de testes para a compreensão do padrão da epidemia e para o controle da transmissão”, reforça em nota enviada a VEJA SAÚDE. Uma testagem massiva, entende o órgão, permite que o sistema de vigilância seja capaz de identificar novos focos da doença e isolá-los a tempo, minimizando o impacto das formas mais graves da Covid-19 e a sobrecarga nos hospitais.

O desafio é botar essa política em prática, ainda mais em um contexto marcado por dúvidas, discrepâncias regionais e limitações de verba. Desde o diagnóstico do primeiro caso no Brasil, registrado em São Paulo no dia  26 de fevereiro, diversas dificuldades se somaram: Os melhores testes (os PGR) são escassos e, em sua maioria, só aplicados em pessoas internadas, participantes de pesquisa ou atendidas em redes sentinelas, unidades de saúde que fazem o exame em áreas selecionadas. A falta de equipamentos e reagentes para processá-los em tempo hábil também prejudica o monitoramento em massa.

“Em um momento de pandemia no qual os Estados Unidos, a Europa e a China estão comprando tudo, sobra pouco para nós”, observa o infectologista Alessandro Pasqualotto, professor da universidade federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.
”Às vezes você não consegue importar maquinário, ás vezes não consegue o insumo. É um cenário muito crítico”, pontua. Daí a mobilização da própria Organização das Nações Unidas (ONU) para países em desenvolvimento criarem condições de produzir localmente recursos que vão de equipamentos de proteção para profissionais de saúde a dispositivos de diagnóstico e tratamento. Hoje, mesmo quando há condições de fazer o teste molecular, não raro a falta de estrutura atrasa os resultados. Pasqualotto diz que não adianta realizar o PCR e o laudo voltar em 10 dias. O ideal é sair no máximo em 48 horas.

Diante de tantos obstáculos, quem ganhou espaço foram os testes rápidos ou sorológicos, feitos com uma pequena amostra de sangue e que dão resultado em minutos. 

Más, sozinhos, eles não resolvem a parada. Os mais utilizados no Brasil detectam anticorpos formados em reação ao vírus e , em muitos casos, a infecção está em remissão ou até foi embora. Do ponto de vista coletivo, seria importante mirar as situações em que o vírus está realmente ativo, até porque a porcentagem da população já infectada é baixa. “Na fase em que o Brasil está, o PCR ainda é o mais importante”, afirma Gaparetto.